Cirurgia Torácica

Hiperidrose

A hiperidrose é caracterizada pelo aumento do suor em regiões ou áreas específicas do corpo. É uma disfunção relativamente frequente, com incidência entre 0,6 a 1% da população. Os locais mais acometidos são: mãos, pés e axilas. É mais frequente em adultos jovens e adolescentes, com predomínio do gênero feminino. Trata-se de uma situação extremamente desconfortável, que causa transtornos de relacionamento e sociais.

O suor é um dos mecanismos que temos para regular e manter a temperatura do corpo ao redor de 36,5º C, independente da temperatura externa. Ou seja, no deserto do Saara ou nas geleiras do Alaska, a temperatura corporal será a mesma. Através da transpiração (suor) ocorre a troca de calor com o meio ambiente, razão pela qual suamos mais em locais quentes e menos em locais frios. A temperatura agradável para o corpo humano é algo entre 22 e 25ºC, acima disso sentimos calor e começa o estímulo para suar.

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A média da temperatura mundial é ao redor de 13,9ºC. O Brasil é mais quente e, por isso, o suor é mais presente no nosso dia a dia.

O diagnóstico da hiperidrose é clínico, feito através da consulta médica e exame físico, de acordo com as queixas e limitações individuais. A comprovação do suor excessivo é visual e direta. Podemos ver em certos pacientes o suor pingar e escorrer pelas mãos. Atrapalha para escrever, cumprimentar pessoas, andar de mãos dadas, segurar objetos e usar luvas, além de ter limitações sociais e profissionais. O suor também é inconveniente para quem usa calçados abertos ou chinelos, já que escorregões e quedas podem ser frequentes no dia a dia desses pacientes. A hiperidrose axilar, por sua vez, está associada à sensação de falta de higiene e de ficar com a roupa molhada. Existem as combinações entre os tipos, sendo a mais frequente a hiperidrose palmo-plantar.

Além do exame clínico, existem alguns aparelhos para mediar a taxa de evaporação de água na pele em gramas, por metro e por hora, são utilizados para pesquisa em universidades.

Também podemos mensurar a percepção individual da qualidade de vida pelo próprio paciente por meio de questionários específicos, novamente usados em centros de pesquisa.

A hiperidrose primária não tem uma causa estabelecida ou outra doença associada. Já a hiperidrose secundária pode ser relacionada a outras doenças como hipertiroidismo, mesmo que raramente. A obesidade é outra das possíveis causas da hiperidrose. Pessoas com IMC (índice de massa corpórea) acima de 25 kg/m² tem uma tendência de suar mais que pessoas sem sobrepeso. Para calcular seu IMC, é necessário dividir seu peso por sua altura ao quadrado (peso/(altura X altura). A relação entre peso e suor é fácil de perceber. Como vimos, o Brasil é um país com clima equatorial, tropical e subtropical. Numa boa parte do ano, a temperatura do ambiente é maior que 25ºC. Se a pessoa está acima do peso, como cerca de 10 kg, fica fácil entender que trabalhar no calor com sobrepeso é um estímulo maior para suar devido ao esforço de “carregar” esse peso extra. Por isso, é importante ter certeza de qual tipo de hiperidrose o paciente tem, pois o tratamento é diferente. Na hiperidrose secundária, é preciso tratar a causa de base e, somente então, avaliar o grau de suor e a repercussão clínica.

O suor é regulado pelo sistema nervoso autônomo ou, mais especificamente, o sistema simpático. Este sistema é composto por um nervo longo, com origem no cérebro, e percorre toda a extensão da coluna cervical, torácica e lombar. Nesse trajeto, há vários gânglios que fazem as conexões entre o sistema autônomo e os nervos periféricos, como por exemplo até as glândulas sudoríparas, responsáveis pela produção de suor. O sistema autônomo tem uma característica principal: é responsável pelas funções automáticas do corpo humano, como batimento cardíaco, produção de saliva, lágrimas, suco gástrico e suor. São atividades que ocorrem sem a nossa vontade. Porém, emoções e ansiedades como a tristeza, o choro e o medo interferem neste sistema.

Portanto, o suor é influenciado tanto pela variação da temperatura externa como pelo estado emocional.

O tratamento da hiperidrose primária consiste em interromper o estímulo nervoso do sistema autônomo até a glândula sudorípara, que pode ser feito por medicamento ou cirurgia.

Tratamento clínico

É realizado com medicamentos de uso contínuo, que bloqueiam a ação do neurotransmissor e, assim, interrompem o mecanismo do suor. O mais utilizado e disponível no Brasil é a oxibutinina. Os benefícios demoram cerca de 3 semanas para acontecer e o remédio precisa ser tomado de modo contínuo. O efeito colateral esperado é a boca seca.

Este medicamento pode ser usado como primeira opção antes da operação com redução do suor. Contudo, a simpatectomia é mais efetiva.

Tratamento cirúrgico

A simpatectomia torácica por videotoracoscopia é o tratamento mais efetivo até o momento. Consiste na secção ou ressecção dos gânglios simpáticos torácicos bilateral. É realizada com anestesia geral.

Para o tratamento operatório, existem 5 pontos que devem ser considerados:

1. Anestesia Geral
Hoje em dia, a anestesia é muito segura devido aos exames pré-operatórios. Com exames normais, o risco é mínimo. É importante lembrar, no entanto, que ele ainda existe, já que, em medicina, não há procedimento sem risco.

2. Incisões cirúrgicas
São realizadas 4 incisões, duas em cada hemitórax. Cada incisão tem ao redor de 2 cm. Uma para introdução da ótica e câmera de vídeo e outra para o instrumento de trabalho para intervir no gânglio simpático. Em cerca de 30 a 40% dos pacientes, existem aderências entre a pleura e o pulmão que dificultam o acesso às cadeias simpáticas. Quando isso ocorre, pode ser necessário aumentar o tamanho das incisões.

3. Dor pós-operatória
Todo procedimento operatório tem dor. A simpatectomia por videotoracoscopia não é uma exceção. A internação hospitalar geralmente é de 1 dia, e o repouso em casa cerca de 3 dias, com uso de analgésicos simples e anti-inflamatórios.

4. Efeitos adversos
Os efeitos adversos são situações que sabidamente podem ocorrer após um tratamento. A sudorese compensatória, por exemplo, ocorre em todos os pacientes após a simpatectomia. A diferença é a intensidade, que varia de acordo com o paciente. Os locais mais frequentes são abdome e costas, mas podem ocorrer no rosto, pescoço, coxas e nádegas. A simpatectomia é irreversível. O suor compensatório mias intenso ocorre em homens e em pessoas com sobrepeso.

5. Complicações
As complicações são situações pós-operatórias que sabemos que podem ocorrer mas trabalhamos para que não aconteçam. Elas interferem na programação planejada e exigem uma ação imediata do médico com tratamento adequado. A incidência após a simpatectomia é de cerca de 5%, ou seja, em cada 100 pacientes, 5 apresentam complicações. As mais frequentes são: drenagem torácica (por aderências pleurais, pneumotórax ou hemotórax), infecção (pneumonia ou da incisão), entre outras.